Um
dia comum de colégio, uma aula sem muito entusiasmo, todos já
esperavam o sinal tocar e assim poderíamos todos guardar nossos
materiais surrados e já muito folheados.
Num
suspiro de cansaço, uma menina sussurra a possibilidade de viajar.
Mas não uma viagem comum, com a família, com todos aqueles que
sempre as fazem. Uma viagem onde ela pudesse ter aqueles com quem
passou anos e anos lado a lado, na luta pelo conhecimento básico.
Ao
ouvir, o professor, que também já encontrava-se exausto, decidiu
que o faria. Não só pelo interesse da menina, mas porque ele, que
já lecionara aos mesmos alunos por um bom tempo, iria fazer uma
longa viagem para o exterior, perdendo a maior parte do contato que
sempre teve com seus alunos.
Data
marcada. Todos iriam fazer uma viagem, para não muito distante, mas
que talvez mudaria o rumo da vida de alguns ali presentes. Até que
o dia da tão esperada viagem chegasse, todos permaneciam
entusiasmados.
Entusiasmados
com o quê? De fato, viajar com amigos para qualquer que seja o
local, é divertido. Mas essa não era uma viagem qualquer, não para
todo mundo. Talvez o significado não fosse tão forte quando poderia
ser. A saída de alguém que certamente se empenhou para que todos
nós tivéssemos a mínima condição de utilizar as ferramentas
certas com os problemas que fossem coerentes, era, querendo ou não,
algo a se considerar.
Olhando
de tal forma, parece história dramática, mas não é bem assim. É
uma questão de valores, sociais, éticos. Mas não importa.
Chegando
o dia, todos nós continuamos animados, vamos viajar. É feita aquela
velha chamada de nomes, escritos numa velha lista de frequência, que
sempre temos de assinar. Afinal, ninguém quer se responsabilizar
tanto assim por você.
De
um a um, todos entram no ônibus e começa o passeio. Triste começo
para aqueles que gostam de viajar ao silêncio. Ninguém sequer parou
de cantar, gritar, pular. Ao passar por alguém, por mais estranho
que fosse o sujeito, por mais estranha fosse a situação, todos
gritavam e acenavam para o desconhecido.
É
estranha essa sensação de liberdade. Seria incrível se não cômico
dizer que ficamos mais humanos quando num passeio escolar, mas não
deixa de ser verdade. Devíamos acenar mais para estranhos, nada mais
que um feliz incoveniente.
E
a viagem continua. Os gritos, os pulos, as canções e os acenos são
constantes. Até que avista-se a placa de boas vindas da cidade.
Agora inicia-se um novo padrão. Todos começam a planejar seus
feitos nos dois locais que visitaríamos.
Primeira
parada, exposição artística. Ouvimos diversas histórias e
explicações sobre cada pecinha guardada no museu. Enquanto isso, as
garotas brigavam com seus próprios cabelos chapeados, chovia naquele
momento. Alguns alunos andavam pelos corredores e aposentos do museu,
fazendo seus próprios tours.
Todos
de volta ao ônibus, é hora de ir ao shopping. Com certeza era a
hora mais esperada por todos. A acústica daquele museu era horrível
e mal ouvíamos o que o senhor queria dizer.
Ir
ao shopping com aquela quantidade de colegas e amigos era no mínimo
entusiasmante. Chegando lá, todos já haviam formado seus grupinhos.
Na maioria, meninos saíram com meninos e meninas com meninas.
Tínhamos um objetivo diferente naquele dia.
Após
um lanche e alguns compras, a maioria, se não todos os garotos
dirigem-se à estação de jogos. Ao contrário das meninas, que
procuram por roupas e calçados mais novos e descolados. Mas tinhamos
uma missão, e era hora de matar a saudade daqueles fliperamas
arcaicos e desvalorizados.
Depois
de muita brincadeira, fomos ver o tal Lanterna Verde em 3D que tanto
estávamos à espera. Compramos ingressos, pipoca e refrigerante,
como de costume e adentramos na sala. O filme começa.
Enquanto
os meninos apreciam os efeitos especiais, sangue, mortes e analisam
minuciosamente as leis da física presentes nas cenas, as garotas
tentam chegar numa conclusão aceitável de que ator é o mais
bonito. Não importa o quão idiota seja o seu papel, o importante
era que ele tivesse músculos e um carro legal.
Ao
fim do filme, era hora de voltar ao ônibus e assim começar uma nova
viagem, de volta para casa. Pode parecer triste agora, mas já
estávamos cansados daquele lugar. É incrível como algo pode passar
de muito interessante para uma chatice total dentro de algumas horas.
De
volta ao colégio, enquanto alguns alunos iam para casa, outros
esperavam seus pais, e o professor, com um sorriso de missão
cumprida no rosto, despedia-se de seus alunos. Mas não era um adeus,
não ainda.
Alguns
dias se passam, e a última aula espera ser dada. Mas aquele
professor não estava lá para falar da história da arte moderna ou
algo do tipo. Era, de fato, uma despedida.
Após
um breve discurso, que fez muito chorarem, foi passado um vídeo que
ele elaborou com algumas fotos da viagem e de alguns alunos à parte,
junto à varias frases de teor emocional profundo.
Toca
o sinal. Aquele que desejávamos tanto que tocasse na última aula,
agora soava como um choro de despedida. Todos se cumprimentam e
desejam boa sorte em seu caminhos e ele vai embora.
Era
só mais um professor, mas certamente, existe muito mais complexidade
nesse termo comum, do que naquilo que ele escrevia no quadro diante
de seus aprendizes.